Capítulo 4. Deus não matou, ordenou pessoas matarem
Um fator dificultante para a questão moral envolvida é o fato de que Deus não matou, mas ordenou que pessoas matassem. No item anterior, foi discutido sobre a questão moral envolvida num ato de Deus. Quand Deus pede para que pessoas matem, a questão é um pouco mais complexa. A princípio é difícil conciliar um mandamento aparentemente absoluto como“Não matarás” com o que Deus diz a Josué: “Entre, extermine e não deixe nada respirando! Não deixe um animal, criança, mulher, idoso ou idosa respirando. Limpe Jericó!”. Já foi argumentado brevemente no item anterior que como Deus tem direitos sobre a vida e sabe qual a hora certa da morte de todas as pessoas, uma pessoa matar através de uma ordem direta de Deus pode não ser errado. Falaremos mais adiante nisso.
Um outro ponto de vista pode ser desenvolvido ao notarmos que naquela época da história, Deus era o rei imediato de Israel, de uma maneira diferente a qualquer outro episódio na história, o governo e Deus tinha dimensões políticas e étnicas, além de espirituais. Deus naquela ocasião tinha direitos de utilizar Seu povo diretamente como um instrumento da Sua vontade. Obviamente isto não se aplica aos dias de hoje, pois Deus não está governando teocraticamente nenhuma nação no momento, do jeito como era na Bíblia. Por isso, nada de sair por aí matando pessoas.
Voltando ao ponto da moralidade ordenada, é preciso notar que o ato só se tornaria morlmente obrigatório caso Deus ordenasse tal ato. Se os israelitas matassem os amorreus sem que Deus tivesse os ordenado, seria errado, afinal eles estariam cometendo assassinato e desobedecendo diretamente a Êx 20.13. O ato da ordem divina, naquele contexto político, significava que Deus já intencionava julgar aqueles homens através da morte e daí utilizou comandados para executar este ato.
Aqui pode começar a surgir uma confusão de conceitos, entre moralidade ordenada por Deus e a corrente teológica conhecida como voluntarismo. Sobre o que falamos até agora, a moralidade ordenada significa que os valores morais são determinados pelos comandos de Deus; uma vez que Deus não dá ordens sobre si mesmo, Ele não possui obrigações morais, Ele simplesmente age de acordo com Sua natureza, de bondade, justiça, amor, etc. Entretanto, isto parece deixar a moralidade à mercê de decisões arbitrárias de Deus, como se Ele fosse um "relativista moral". Matar seria errado algumas vezes e certo outras vezes, dependendo apenas de que Deus tenha vontade de 'dizer o contrário'. Esta visão da moralidade é conhecida como voluntarismo, e certamente ela coloca a moralidade divina numa posição subjetiva.
O voluntarismo já foi defendido por alguna teólogos cristãos, mas é uma visão minoritária. O voluntarismo tem muito mais a ver com a concepção islâmica de Deus do que no crisrianismo. Segundo o Islã, o poder de Deus é algo mais fundamental que o Seu caráter. Allah é um ser incognoscível, Sua vontade determina tudo que é moral de uma forma que não podemos explicar o porquê de suas escolhas, nos parecendo assim serem arbitrárias. Em contraste, no Cristianismo, vemos Deus como tendo algumas virtudes fundamentais que são necessárias ao Seu ser (santidade, amor, imparcialidade, compaixão, justiça, etc.), tão necessárias quanto são três lados a um triângulo.
O ponto em que o voluntarismo e a moralidade ordenada se tocam é que os valores morais advém de comandos imperativos. Existe uma distinção entre 'bem e mal' e 'certo e errado'. O bem e o mal sozinhos não são suficientes em produzir o certo e o errado. Afinal, só porque uma coisa é boa em si não significa que su obrigado a fazê-la. Logo, para criar o conceito de certo e errado, ou obrigação moral, é necessária uma palavra de ordem, um mandamento, vindo de uma fonte de autoridade legítima.
O ponto em que o voluntarismo e a moralidade ordenada divergem é em relação a essência ou a origem destes mandamentos. Eles não são totalmente arbitrários, mas sim são resultados da natureza divina. Daí, a única dificuldade desta teoria é explicar ats de Deus que aparentemente contradizem a Sua natureza, e a matança dos cananitas é um destes casos. Mas até aqui temos dado explicações possíveis para muitos aspectos deste episódio.
Capítulo 5. O Contexto Social Hebreu
Quando Deus escolheu Abraão, Sua intenção era a de criar um povo que fosse totalmente separado ('santo') da corrupção presente no mundo, para que através deste povo Jesus viesse a nascer na época adequada. Deus foi muito rígido ao ensinar o conceito de santidade e separação para este povo porque Ele queria que isto ficasse bem claro na mente e na cultura deles. Deus foi totalmente enfáticvo com respeito à proibição da assimilação de nações pagãs. Quando Ele ordenou a destruição dos cananitas, o Senhor falou:
“Nem te aparentarás com elas; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos; Pois fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós, e depressa vos consumiria.” (Dt 7:3-4).
“Para que não vos ensinem a fazer conforme a todas as suas abominações, que fizeram a seus deuses, e pequeis contra o SENHOR vosso Deus.” (Dt 20.18)
Este mandamento é uma parte de toda a estrutura da complexa e característica lei judia de práticas 'puras' e 'impuras'. Para a nossa mente ocidental muitas das Leis destinadas aos hebreus nos parecem completamente absurdas: não misturar linho com lã, não usar os mesmos recipientes para carnes e laticínios, etc. Estes tipos de regras serviam para deixar algo implícito na metalidade israelita: a proibição de vários tipos de mistura. Isto serviu como um tangível e diário lembrete que Israel era um conjunto especial de pessoas separado para Deus.
O Dr. William Craig conta sobre uma vez que conversou com um missionário indiano. Aquele homem lhe disse que a mente oriental tem uma tendência inveterada com respeito à amalgamação, à mistura de conceitos, às vezes até contraditórios. Ele falou que os Hindus ouvem o evangelho sorrindo e dizem “Sub ehki eh, sahib, sub ehki eh!” (Tudo é Um, sahib, Tudo é Um!). O missionário faz quase o impossível para alcançá-los por causa até mesmo das contradições lógicas incluídas no todo.
A severa dicotomia que Deus aplicou a Israel ensinou para eles que qualquer assimilação com a idolatria pagã era intolerável. Era Sua forma de preservar a saúde e posteridade espiritual de Israel. A matança das crianças cananitas não apenas serviu para prevenir uma assimilação da identidade cananita, mas também serviu como uma ilustração tangível e detalhada da separação de Israel como um povo exclusivo de Deus.
Uma questão que ainda poderia permanecer é o efeito psicológico que a matança gerou aos soldados. Certamente deve ter sido algo perturbador. Não seria errado Deus submeter seus filhos a tal atrocidade? Soldados tendo que invadir casas, matando mulheres e crianças sem nenhuma piedade. É horrível só de imaginar.
O problema neste questionamento é que novamente estamos olhando com os nossos olhos ocidentais pós-modernos. Para as pessoas do mundo antigo, a vida já era naturalmente brutal. A expectativa de vida e as taxas de mortalidade eram muito pioresque hoje em dia. Violência e guerra eram fatos comuns na vivência de cada povo. Pode-se notar isto até mesmo pelo modo como os autores dos livros bíblicos escrevem estes livros. Não há nenhuma nota sobre algum peso na consciência sobre as matanças. Pelo contrário, aqueles soldados se tornaram heróis nacionais. E isto reflete também a seriedade da chamada dos israelitas como povo escolhido de Deus. Javé não estava brincando com eles; na verdade, se Israel vacilasse, o próprio Deus alertou que o mesmo aconteceria com eles. Como C. S. Lewis disse uma vez, “Aslan não é um leão manso”.
Capítulo 6. Outras questões
Uma questão que é frequentemente colocada a respeito da matança dos cananitas é a morte das crianças. Se Deus mandou extermninar o povo por causa de seu pecado, por que matar crianças inocentes? Uma das razões já foi dita: Deus queria ensinar o conceito de separação aos isarelitas, Ele não queria que o Seu povo criasse nenhum tipo de relação com aqueles povos. Se Deus não tivesse ordenado o extermínio daqueles povos, muitas daquelas crianças seriam mortas pelo seu próprio povo como sacrifício a Moloque, e as que sobrevivessem cresceriam e se tornariam tão corruptas quanto seus pais. Ao matar as crianças, Deus livrava pelo menos aqueles inocentes de se corromperem como seus pais fizeram. E se pensarmos do ponto de vista espiritual se aquelas crianças eram realmente inocentes, elas alcançaram a salvação ao morrerem, e receberam a incomparável alegria do paraíso. Pensando assim a questão das crianças parece ser muito facilmente resolvida.
A moralidade ordenada é válida para os dias de hoje? Isto é, se Deus mandar alguém matar, ele estará fazendo legitimamente e inculpável? Vimos que não. Naquela ocasião, Deus era líder político além de líder espiritual da nação. Portanto, Ele ditava leis. Hoje em dia, vivemos em nações que possuem seu próprio sistemna político, e a Bíblia recomenda que obedeçamos às leis civis de nossas nações, pois exceto nos casos de corrupção, as autoridades são um instrumento de Deus para insituir as obrigações morais (Rm 13.1-7). Portanto, Deus nunca vai mandar alguém matar se esta pessoa vive num país onde matar é errado. Uma pessoa hoje em dia que diz matar em nome de Deus claramente é um psicopata sem justificativa.
O último ponto que eu gostaria de mencionar é mais uma vez fazer um contraste com o islamismo. Essa religião costuma ver a violência como um meio para propagar a sua fé. Os muçulmanos dividem o mundo em duas partes: adar al-Islam (Casa da Submissão) e adar al-harb (Casa da Guerra). A primeira são aquelas terras as quais têm sido adquiridas em submissão ao Islamismo; a última são aquelas nações que ainda não se submeteram. Neste episódio bíblico, a guerra não foi um instrumento para conversão ao islamismo, mas sim o justo julgamento de Deus sobre aquelas pessoas. Além disso, como vimos, tal abordagem foi uma intervenção histórica incomum, não um costume corriqueiro judeu.
Capítulo 7. Conclusão
Este realmente é um texto muito difícil de ser entendido aos nossos olhos, que estão acostumados com a democracia, lberdade, facilidades e valor à vida que temos hoje em dia. É claro que os valores morais de Deus sempre foram os mesmos, mas a revelação de Deus à humanidade é progressiva, ou seja, Deus se faz conhecer a nós aos poucos. Assim como um pai não castiga o filho pequeno da mesma maneira que um filho adolescente, Deus tomou medidas diferentes parta aquele e para este tempo. Lembre-se que o pai ama tanto o filho quando criança quanto ele adolescente.
Portanto, a palavra que temos hoje do Senhor é “Amem seus inimigos. Orem por aqueles que abusam de vocês. Não matem para espalhar o Evangelho, mas morram se preciso para fazê-lo.”.
Fonte: (David Sousa)

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