Genocídios e atrocidades na Bíblia?
Capítulo 1. Introdução
No Velho Testamento, narra-se a história de como os descendentes de Abraão, os hebreus, tomaram a terra de Canaã, em cumprimento da promessa feita ao próprio Abraão mais de 500 anos antes, tendo eles se fixado ali e se estabelecido finalmente como uma nação. Em uma primeira leitura, causa muita estranheza o moo como se deu esta conquista: houve uma ordem divina para exterminar sem misericórdia todos os moradores antigos daquela terra. Tal estranheza é reforçada quando vista aos nossoa olhos ocidentais de hoje em dia. Será que é possível encontrar humanamente uma justificativa para tais episódios? Podem estas atitudes serem compatíveis com um Deus bom, justo e misericordioso?
Antes de responder, vamos primeiro decompor e analisar o problema. O povo hebreu foi escravizado por cerca de 400 anos no Egito. Eles se libertaram e rumaram em direção à Canaã, a "Terra Prometida". Deus os livrou da escravidão e os fez voltar para a terra de seus antepassados. Em Dt. 7.1-2 e Dt 20.16-18 vemos as ordens de Deus em relação ao que fazer com o povo que lá residia. Todos deveriam ser mortos, sem exceção. No livro de Josué vemos a ordem ser cumprida. Diz-se que a ação cometida pelos hebreus foi um 'genocídio', isto é, o extermínio completo de uma nação ou etnia. A Bíblia de antemão dá uma justificativa para o ato, a saber, aqueles povos estavam sendo exterminados por causa dos pecados e imoralidades que eles cometiam. Mas esta resposta parece ignorar que crianças e bebês inocentes também foram mortos. Havia neles alguma culpa? Poderia-se tamb ém argumentar que a moralidade na verdade estaria definida pelas ações de Deus, sendo que se Deus mandou matar era porque matar, naquele contexto, era moralmente correto. Isto parece gerar um conceito arbitrário de moralidade, aliás bem parecido com o islamismo, o qual justifica muito de seus atos violentos por estarem cumprindo a vontade de Deus.
O mais interessante é notar que apesar de a história ofender nossa sensibilidade moral, esta foi formada na nossa cultura ocidental através dos próprios valores que foram herdados da tradição judaico-cristã. Mesmo as pessoas que não são cristãs hoje em dia possuem inconscientemente este senso moral, por causa de fatores sociológicos. A Bíblia e o cristianismo ensinaram a sociedade no passado o valor intrínseco de cada ser humano, a importância de uma conduta justa e de uma punição justa para cada crime. Mas a mesma Bíblia parece violar estes valores com a história da matança dos cananitas. Na verdade, isto parece entrar em contradição até com outros pontos do Velho Testamento, one o Deus Javé se mostra justo, compassivo e sofredor por seu povo (e oportunamente alguns críticos religiosos, como Richard Dawkins utilizam este texto da Bíblia para pintar um retrato distorcido de Deus).
Mas afinal, o que está em jogo aqui? O que acontece se Deus realmente emitiu esta ordem. O que concluímos daí? Que Ele não existe? Ou que Jesus não ressuscitou dos mortos? Dificilmente, pois estas questões são atestadas de outras formas independentes disto. Alguns podem objetar que este episódio contraria o argumento moral para a existência de Deus. Mas isto também não ocorre. (Para quem não lembra, o argumento moral se resume a: (1) Se Deus não existe, não existem valores morais objetivos; (2) Existem valores morais objetivos; (3) Logo, Deus existe). Se um objetor afirmar que Deus fez algo moralmente errado ao exterminar os cananeus, ele estaria só confirmando a premissa 2, e portanto, a conclusão do argumento. A outra abordagem é dizer que o evento não ocorreu, que foi apenas uma lenda contada pelos hebreus ou que eles simplesmente pensaram que Deus havia ordenado isto. Aí entra em jogo a questão da inerrância bíblica. Entretanto, observe que mesmo se o texto do pentateuco não for confiável, isto não diz nada acerca da confiabilidade do resto da Bíblia. Os evangelhos do novo testamento continua mantendo a mesma credibilidade e de forma nenhuma as conclusões acerca da existência do Jesus histórico ou as provas de sua divindade ficam prejudicadas. Afinal, são livros diferentes, escritos em épocas diferentes, por autores diferentes. Mas vamos ignorar a questão da inerrância e assumir que os relatos são verdadeiros, para não complicar o problema.
Então, vimos que o problema não é uma objeção séria à existência de Deus, na verdade o problema reside nas definições acerca da moralidade e do caráter de Deus. Estas não deixam de ser questões muito importantes.
Capítulo 2. O caráter de Deus
Ao lermos os textos proféticos no Velho Testamento (17 livros, entre Isaías e Malaquias), podemos constatar o profundo cuidado de Deus pelos pobres, oprimidos, humilhados, órfãos e outros. Vemos Ele a todo momento agindo de forma justa e consistente, às vezes quase implorando para que as pessoas se arrependam de seus caminhos, para que pudesse não julgá-las. Por exemplo, no livro de Ezequiel, Deus diz:
“Vivo eu, diz o Senhor DEUS, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva”. (Ez 33.11)
Deus enviou Jonas a Nínive porque teve compaixão dos habitantes daquela cidade pagã, nas Suas palavras, “homens que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda” (Jn 4:11). No próprio Pentateuco, encontramos os dez mandamentos, uma dos códigos morais mais elevados da Antiguidade. Mesmo o aparentemente severo "olho por olho, dente por dente" não servia para expressar vingança, mas sim para oficializar a justiça, dadas as punições excessivas que eram comuns na época.
Veja também quando Deus intentou destruir Sodoma e Gomorra, e Abraão corajosamente retrucou: "Destruirás também o justo com o ímpio? Se porventura houver cinqüenta justos na cidade, destruirás também, e não pouparás o lugar por causa dos cinqüenta justos que estão dentro dela? Longe de ti que faças tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe de ti. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?" (Gn 18.25). Abraão "negocia" com Deus, até que Deus garanta que não destruiria a cidade até mesmo se houvessem apenas dez pessoas corretas na cidade, por amor a eles.
A primeira pergunta que pode surgir, sobre o caráter de Deus, e se Deus está sujeito às mesmas obrigações morais que nós, ou melhor, especificamente no contexto de matar pessoas.
Parece haver uma distinção moral infinitamente diferente entre o fato de um homem matar um homem e Deus matar um homem. Para saber disso temos que pensar primeiro: Por que matar é errado? Matar é errado porque nenhum ser humano tem direitos sobre a vida de outro. Todos têm o direito de viver, direito esse que foi dado por Deus. Todos nós recebemos a nossa vida física de graça, sem nada a pagar por isso. Em segundo lugar, quando matamos alguém, privamos a vítima de desfrutar de um futuro. Nós não conhecemos o futuro, e não sabemos se aquela pessoa não morresse, quais oportunidades boas ela teria no futuro. Em terceiro lugar, as pessoas geralmente matam por motivos egoístas: inveja, brigas, ódio, ou às vezes até mesmo por prazer! Agora pense sobre Deus. Deus criou a vida humana, portanto Ele é o único que tem direitos [autorais] sobre ela. Para Deus o primeiro motivo não é aplicável. Ora, Deus conhece o futuro, portanto Ele sabe quando é o instante perfeito para que a pessoa morra, considerando todos os fatores possíveis (não que todo mundo vá ficar feliz com a morte da pessoa, mas o sofrimento causado aos familiares muitas vezes pode ser uma forma de ensinar uma lição espiritual). Para Deus o segundo motivo também é irrelevante. Finalmente, Deus é definido como sendo infinitamente justo, portanto se Ele mata alguém, ou permite que alguém morra, concluímos que este ato é justo, e não pode ser motivado pelos sentimentos corruptos que os humanos têm, pois Deus não pode ter estes sentimentos (pois senão não seria Deus - isto não é uma limitação ao poder dEle, já que se Deus tivesse estes sentimentos Ele seria imperfeito. Um ser perfeito não possui sentimentos corruptos). Então, nenhuma das restrições ao ato de matar se aplica para Deus. Logo, não encontramos motivos para que matar seja errado, para Deus.
Portanto, por mais que nos pareça estranho, é certo para Deus matar homens, mulheres ou crianças sempre que lhe aprouver. Deus dá a vida e Ele toma a vida. Na verdade, todas as pessoas que morrem, morrem pelo consentimento de Deus. Então, Deus está tomando vidas todos os dias. Ele tomará cerca de 50.000 vidas hoje. A vida está nas mãos de Deus. É importante ver também que Deus não nos deve nada. Ele não tem a obrigação de prolongar a nossa vida indefinidamente. Se eu caísse morto agora mesmo, ou se uma bomba explodisse matando centenas de pessoas junto comigo, Deus não teria feito nada de errado. Ele não erra com ninguém quando toma a sua vida, seja com duas semanas ou com 92 anos de idade.
Do ponto de vista do cristianismo, a nossa condição corrupta por causa do pecado nos torna dignos de morrer sem nenhuma piedade, portanto na verdade a vida é uma grande benção que Deus nos faz desfrutar, não é um dever dEle. É um ato de amor e misericórdia, que foi consumado totalmente quando Deus vem na forma de Jesus para pagar a dívida do pecado da humanidade e nos tornar novamente aceitáveis diante dEle e de Sua Santidade.
Assim, o Velho e o Novo Testamentos apresentam Deus como alguém que tem direitos totais sobre a vida e minha morte. “O SENHOR deu, e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR.” (Jó 1.21) Quando fazemos essas ponderações, percebemos que o "Não matarás" em Êx 20.13 refere-se a "matar alguém por motivações próprias, sem a ordem de Deus".
Voltando à questão de Deus e as obrigações morais, esta questão está intimamente relacionada com os fundamentos da nossa teoria ética. Nossas obrigações morais, a aprtir da Bíblia, seriam constituídas pelos mandamentos de Deus santo e amoroso. Já que Deus não pode emitir ordens a si mesmo, Ele não tem obrigações morais para cumprir. Portanto, Ele certamente não esta sujeito às mesmas obrigações e proibições a que nós estamos. Por exemplo, como já vimos, eu não tenho nenhum direito de tirar a vida de um inocente. Se eu fizesse isto, seria um assassino. Mas Deus pode dar e tirar a vida como Ele decidir, dadp que Ele possui direitos sobre a vida. Nós todos reconhecemos isto quando censuramos alguma autoridade que presume tirar vidas como “brincar de Deus”. Portanto, damos por esclarecida a questão de que Deus teria ou não direito de matar pessoas.
Capítulo 3. O Contexto social dos cananitas
A Bíblia diz alguma coisa, mas ainda sim pouco, sobre como era o modo de vida dos cananitas. Hoje em dia sabemos muito mais por causa de evidências arqueológicas, descobrimos que a cultura cananita incluia ritos de prostituição cultual, muitas formas de violência e idolatria e até mesmo rituais de sacrifício de crianças, que eram oferecidas ao deus Moloque.. Em Gn 15.13,16, Deus diz a Abraão: “Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos… e a quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia.”. "Amorreu" era um nome genérico para os povos daquela região, é um termo composto das duas palavras hebraicas 'am e 'or, literalmente "povo das montanhas". Assim, mais de quatrocentos anos antes do julgamento de Deus, aquele povo já estava envolvido em práticas corruptas. E parece que este tempo todo foi dado como uma oportunidade para que os amorreus se arrependessem de seus atos. Esta passagem revela o caráter de Deus que já estamos acostumados a ver em outras passagens do Velho Testamento.
É interessante que a libertação dos escravos do Egito e a viagem do hebreus em Canaã foi recheada de eventos milagrosos e extraordinários, que foram visíveis para as nações ao redor (Leia Js 2.8-11). Assim estas nações tiveram ainda uma chance de se arrependerem antes de serem destruídas. E, de fato, tiveram também oportunidade de rendição. Os gibeonitas, um povo dos amorreus, entraram em acordo com Josué e não foram exterminados (Js 9).
Os cananeus deveriam ter uma visão muito diferente de Deus do que Israel. Em um ensaio de Clay Jones publicado no periódico Philosophia Christi ("We Don’t Hate Sin, So We Don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendum to ‘Divine Genocide’ Arguments,” Philosophia Christi 11/1 (2009): 52-72.http://epsociety.org/store/backissues.asp?issue=23&mode=detail), mostra-se que textos ugaríticos retratavam El, o Deus de Israel, como um fraco, usurpado por Baal, e imundo em seus próprios excrementos e urina. Em contraste, no pensamento de Israel sobre o Deus, Ele estava disposto a adiar o julgamento de Sodoma e Gomorra por amor de uns poucos justos que estivessem na cidade; ele esperou mais de 400 anos o arrependimento dos cananitas, esperou até que sua justiça não mais permitisse que eles continuassem impunes. como povo.
Além disso, não foram os israelitas que atacaram primeiro, foram os cananeus que não se mostraram amistosos, e Deus convenientemente permitiu isso para que Israel usasse a defensiva como um instrumento da justiça de Deus em punir aqueles povos, como vemos neste texto de Josué:
"Não houve cidade que fizesse paz com os filhos de Israel, senão os heveus, moradores de Gibeom; por meio de guerra, as tomaram todas. Porque tinha sido desígnio do Senhor que os seus corações se endurecessem e combatessem contra Israel, e que fossem derrotados." (Js 11.19,20)
Além disso, não foram os israelitas que atacaram primeiro, foram os cananeus que não se mostraram amistosos, e Deus convenientemente permitiu isso para que Israel usasse a defensiva como um instrumento da justiça de Deus em punir aqueles povos, como vemos neste texto de Josué:
"Não houve cidade que fizesse paz com os filhos de Israel, senão os heveus, moradores de Gibeom; por meio de guerra, as tomaram todas. Porque tinha sido desígnio do Senhor que os seus corações se endurecessem e combatessem contra Israel, e que fossem derrotados." (Js 11.19,20)
Portanto, concluímos que Deus tinha razões moralmente suficientes para a ordem que que Ele manifestou aos israelitas, que esta ordem não era contrária à sua natureza e que ela não foi arbitrária, como se Ele estivesse “decidindo na hora" o que era bom ou mal. Esta ordem foi um ato de julgamento pela pecaminosidade do povo, que havia sido adiado por muito tempo. Assim como Deus usou Israel como um instrumento para a sua justiça sobre Canaã, da mesa forma centenas de anos depois Deus também usou as nações da Assíria e Babilônia como julgamento e punição à corrupção de Israel, uns 600 anos depois.
Fonte: (David Sousa)

Nenhum comentário:
Postar um comentário